A esquerda brasileira parece ter criado uma regra conveniente: aquilo que faz em nome de suas convicções é tratado como virtude, mas a mesma atitude, quando parte dos adversários, vira motivo de condenação. É o famoso “ódio do bem”, expressão que resume a seletividade de quem prega tolerância, mas nem sempre aceita a reciprocidade.
Uma declaração de Fernando Haddad, feita em janeiro de 2023, durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, voltou a alimentar essa discussão. Na ocasião, Haddad afirmou que brasileiros haviam deixado de consumir produtos de empresas associadas ao governo de Jair Bolsonaro. Também revelou considerar o posicionamento social, ambiental e democrático das companhias antes de decidir onde gastar seu dinheiro.
A questão não está no direito de boicotar. Todo consumidor é livre para escolher quais empresas deseja prestigiar. A contradição aparece quando essa liberdade é celebrada de um lado e condenada do outro.
Se deixar de comprar de empresas identificadas com Bolsonaro é uma manifestação legítima de consciência política, por que demitir um funcionário associado ao PT seria necessariamente um ataque à democracia?
A liberdade de escolha não pode ter dono, partido nem preferência ideológica.
O debate ganha contornos ainda mais preocupantes quando surgem manifestações defendendo a demissão de trabalhadores por suas escolhas eleitorais. Nesse ponto, a divergência deixa de ser uma simples decisão de consumo e passa a ameaçar o direito de cada brasileiro de exercer suas convicções sem sofrer perseguição profissional.
Não há, na declaração citada, defesa de Haddad à demissão de eleitores. Mas sua fala recoloca uma questão que merece ser enfrentada sem hipocrisia: até onde vai a tolerância daqueles que se apresentam como defensores da democracia?
Quem reivindica o direito de rejeitar empresas por suas posições políticas precisa reconhecer exatamente o mesmo direito aos adversários. Caso contrário, não está defendendo um princípio, mas apenas a própria conveniência.
O Brasil não precisa de uma democracia em que a liberdade muda de significado conforme o partido de quem a exerce.
Precisa de coerência. Porque, quando o boicote da esquerda é virtude e o da direita é intolerância, o problema não está na liberdade de escolha. Está na régua ideológica usada para julgá-la.
E o chamado “ódio do bem” continua sendo uma contradição, por mais bonito que seja o discurso utilizado para justificá-lo.