O padre Danilo César, titular da paróquia de Areial, no Agreste da Paraíba, realizou um pedido público de desculpas à família de Preta Gil durante uma missa celebrada no último domingo (10). A retratação é parte de um acordo firmado na esfera da Justiça Cível do Rio de Janeiro, motivado por declarações do religioso que associavam a morte da cantora e religiões de matriz africana a elementos negativos durante uma homilia em 2025.
A cerimônia, ocorrida no Dia das Mães, foi transmitida ao vivo pelo YouTube, utilizando o mesmo canal digital onde as ofensas originais foram proferidas. Ao realizar a leitura integral do texto de retratação, o padre evitou o pagamento de uma indenização por danos morais estipulada em R$ 370 mil. O acordo cível envolveu diretamente os familiares da artista e contou com a anuência da Diocese de Campina Grande, responsável pela jurisdição eclesiástica da região.
Acordo Judicial e Retratação Pública
Durante o discurso de retratação, Danilo César citou nominalmente diversos membros da família, incluindo Gilberto Gil, Flora Gil, Bem Gil e José Gil. O religioso admitiu que suas palavras foram “ofensivas e inadequadas”, reconhecendo que sua imprudência causou dor aos parentes da cantora. Além do pedido de desculpas, o termo judicial prevê a doação de oito cestas básicas para uma instituição de assistência social.
“Reconheço que, na homilia proferida em 27 de julho de 2025, minhas palavras foram ofensivas, inadequadas e que, por minha imprudência, causaram dor aos familiares de Preta Gil, motivo pelo qual lamento e me retrato publicamente”, afirmou o sacerdote durante a leitura oficial.
O padre também defendeu a liberdade religiosa como um dos pilares fundamentais dos direitos humanos. Em sua fala, ele destacou a importância histórica e cultural das religiões de matriz africana para a identidade brasileira, assumindo o compromisso de não repetir as declarações discriminatórias.
Obrigações junto ao Ministério Público Federal
Paralelamente ao processo cível, o padre Danilo César celebrou um Acordo de Não Persecução Penal com o Ministério Público Federal (MPF) para evitar um processo criminal por intolerância religiosa. Este acordo anterior já havia resultado em sua participação em um ato inter-religioso em fevereiro, que contou com a presença remota de Gilberto Gil.
As obrigações determinadas pelo MPF incluem medidas socioeducativas rigorosas, como:
- Produção de resenhas manuscritas sobre as obras “A Justiça e a Mulher Negra”, de Lívia Santana, e “Cultos Afro-Paraibanos”, de Valdir Lima;
- Resenha manuscrita do documentário “Obatalá, o Pai da Criação”;
- Cumprimento de 60 horas de cursos certificados sobre o tema da intolerância religiosa;
- Pagamento de R$ 4.863,00 à Associação de Apoio aos Assentamentos e Comunidades Afrodescendentes (AACADE).
Histórico das Declarações
O caso teve origem em 27 de julho de 2025, quando o padre questionou publicamente a fé da cantora Preta Gil. Durante a homilia na paróquia de São José, o religioso mencionou a morte da artista e questionou por que os orixás não a haviam “ressuscitado”. Na ocasião, ele também utilizou termos pejorativos para se referir a práticas religiosas afro-indígenas, chamando-as de “coisas ocultas”.
As falas geraram repercussão nacional e levaram órgãos de defesa da diversidade religiosa a acionarem a justiça. Com a conclusão da leitura da retratação e o cumprimento das etapas educacionais e financeiras, o sacerdote busca encerrar as pendências jurídicas relacionadas ao episódio de discriminação religiosa.
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