História de Tatajuba: a vila cearense soterrada por dunas que virou destino turístico
Foto: G1
A antiga Vila de Tatajuba, situada em Camocim, no litoral oeste do Ceará, permanece sob o soterramento de dunas móveis ocorrido entre as décadas de 1970 e 1980. O fenômeno geológico, provocado pelo deslocamento natural das areias, forçou a migração da comunidade e deu origem ao atual distrito, que hoje é ponto estratégico da Rota das Emoções.
Detalhes
O soterramento foi um processo gradual. A vila original foi construída exatamente na rota de migração das dunas, onde a falta de vegetação e a força dos ventos facilitam o acúmulo de areia. O pescador João Batista de Paula, conhecido como João Errado, reside na região há 78 anos e testemunhou o desaparecimento das estruturas.
“Lá tinha uma vila de pescadores, a duna foi cobrindo e o pessoal saiu e fizeram essa que se chama Vila Nova. A duna foi cobrindo tudo (…), não deu para salvar nada”.
Segundo relatos de moradores, a igreja foi a primeira construção de grande porte a desaparecer, seguida pela escola, o posto de saúde e dezenas de residências de pescadores. João Batista dos Santos, o Tita, e sua companheira Angelaine Alves, que preside a Associação de Moradores de Tatajuba, relatam que a nova vila foi reconstruída a cerca de um quilômetro do local original. Atualmente, o território é dividido em quatro núcleos: Tatajuba, Baixa Tatajuba, Vila Nova e São Francisco.
Contexto
A região é uma Área de Proteção Ambiental (APA) gerida pela Prefeitura de Camocim. Em 2025, o município recebeu mais de 892 mil turistas, atraídos pelas lagoas e pelas condições ideais para a prática de kitesurf. No entanto, o crescimento acelerado gera preocupação entre os nativos quanto à preservação da pesca artesanal e da agricultura local frente à especulação imobiliária.
Em 2023, o Governo do Estado do Ceará interveio na área para garantir a regularização fundiária, após um conflito jurídico de mais de 20 anos com uma empresa privada. O professor Jeovah Meireles, da Universidade Federal do Ceará (UFC), destaca no “Atlas de Tatajuba” a magnitude do ecossistema, citando a Duna Encantada, que possui 30 metros de altura e armazena cerca de 140 milhões de m³ de areia. O soterramento é tecnicamente explicado pela instalação da vila original em uma área de “tabuleiro”, situada diretamente na rota natural de migração desses sedimentos.
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