O roedor silvestre Oligoryzomys nigripes, popularmente conhecido como ratinho-do-arroz, atua como o principal reservatório do hantavírus no bioma da Mata Atlântica. O tema voltou ao debate público após a Organização Mundial da Saúde (OMS) confirmar um surto da variante Andes em um navio de cruzeiro na Europa, com passageiros que transitaram pela Argentina.
De acordo com Bernardo Teixeira, pesquisador do Laboratório de Biologia e Parasitologia de Mamíferos Silvestres Reservatórios do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), o animal é uma peça fundamental da fauna brasileira e não adoece ao carregar o vírus. A espécie possui ampla distribuição geográfica, com registros de infecção nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do país.
Detalhes e Biologia da Espécie
O Oligoryzomys nigripes caracteriza-se pelo pequeno porte, cauda mais longa que o corpo e patas traseiras finas cobertas por pelos claros. Com hábitos predominantemente noturnos, o roedor é onívoro, alimentando-se de sementes, frutos e pequenos artrópodes. Sua capacidade de adaptação permite que habite tanto o interior de florestas quanto áreas modificadas pela ação humana, como bordas de mata e plantações.
Bernardo Teixeira ressalta que o desmatamento e a expansão agrícola favorecem a proximidade do animal com residências e locais de armazenamento de grãos. Além do ratinho-do-arroz, outras espécies como Necromys lasiurus, Calomys callidus, Holochilus sciureus e Akodon montensis também podem hospedar variantes do vírus no território nacional.
Mecanismos de Transmissão
A infecção em humanos ocorre majoritariamente em zonas rurais por meio da inalação de aerossóis. O processo se inicia quando as excretas dos roedores (urina e fezes) secam em ambientes fechados e mal ventilados, como silos e paióis. Ao varrer esses locais, as partículas virais misturam-se à poeira e são aspiradas.
A forma mais clássica de infecção é a partir da limpeza desses locais, quando a pessoa vai varrer esse ambiente e o aerosol contaminado é levantado com a poeira e infecta humanos
Embora menos comuns, mordeduras ou contato direto com as excretas também representam vias de contágio. Estudos indicam que, apesar de não apresentarem sintomas clínicos, os roedores infectados podem ter o tempo de vida reduzido em comparação aos animais saudáveis.
Diferenças entre Variantes e Risco Pandêmico
O surto recente no cruzeiro MV Hondius envolveu a variante Andes, típica da Patagônia, que é a única com capacidade comprovada de transmissão entre seres humanos. No entanto, o Ministério da Saúde e autoridades de pesquisa reforçam que o cenário epidemiológico brasileiro é distinto.
As variantes encontradas no Brasil nunca registraram transmissão de pessoa para pessoa. Além disso, os roedores hospedeiros da cepa Andes não existem em território brasileiro, o que torna o risco de uma disseminação em larga escala ou pandemia extremamente baixo. Atividades ao ar livre, como trilhas e ecoturismo, são consideradas de baixo risco, exigindo cautela apenas em locais fechados com sinais de presença de roedores.
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