Legado de violência: Força do PCC após ataques de 2006 ainda influencia segurança pública, afirma Lincoln Gakiya
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Os ataques coordenados pela facção PCC (Primeiro Comando da Capital) em maio de 2006 completam 20 anos este mês, permanecendo como a crise de segurança pública mais grave da história de São Paulo. A onda de violência, que resultou em 564 mortos e 110 feridos entre os dias 12 e 21 de maio, revelou a estrutura da organização criminosa após a transferência de mais de 700 lideranças para presídios no interior paulista.
Lincoln Gakiya, promotor do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) do Ministério Público de São Paulo, afirma que o impacto daquelas ações ainda reverbera nas decisões atuais de segurança. Segundo o promotor em entrevista à CNN Brasil, o receio de uma nova crise de proporções similares fez com que governantes evitassem medidas drásticas contra a cúpula da facção durante anos.
Omissão e falta de planejamento
Lincoln Gakiya, que vive sob escolta policial ininterrupta, argumenta que o Estado falhou tanto no planejamento das transferências quanto na condução da crise. Ele classifica a remoção dos presos em 2006 como uma das piores operações da história de São Paulo, realizada sem análise de risco ou inteligência prévia.
“O governo sempre foi contra [transferências], não por política penitenciária ou de segurança pública, mas sim por receio de que, se fizessem isso, poderíamos ter um novo maio de 2006. A ameaça sempre pairou e fez as autoridades se acovardarem”
, declarou o promotor. De acordo com ele, o crescimento do PCC é fruto direto da ausência e omissão estatal.
Na época, a Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) e o governo paulista chegaram a negociar o fim dos ataques. O Estado autorizou que uma advogada fosse levada em um avião oficial até Presidente Bernardes para se reunir com Marcola, garantindo que ele estava vivo para que a ordem de cessar-fogo fosse emitida.
Evolução para o status de máfia
Após 2006, o PCC alterou seu modus operandi, migrando de demonstrações de força bruta para uma estrutura empresarial focada no lucro, tráfico internacional e lavagem de dinheiro. Atualmente, a organização conta com mais de 40 mil integrantes e opera em todos os estados brasileiros e em 28 países.
A estratégia de violência também se tornou seletiva, visando autoridades específicas. Entre os alvos identificados pelo Gaeco estão o próprio Lincoln Gakiya, o delegado Ruy Ferraz Fontes e Roberto Medina, coordenador de presídios da região Oeste de São Paulo. O promotor destaca que a facção atingiu hegemonia em São Paulo, agindo agora como uma multinacional do crime.
Isolamento de lideranças
Em 2018, Lincoln Gakiya solicitou a transferência de 22 líderes da cúpula, incluindo Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, para o sistema penitenciário federal. A medida foi executada em fevereiro de 2019, contrariando a vontade inicial das autoridades de segurança da época, que temiam retaliações.
Desde então, o promotor enfrenta um decreto de morte emitido pela organização.
“Vivo tão preso quanto aqueles que eu isolei no sistema federal”
, relata Gakiya, mencionando a restrição total de sua vida social e familiar. Em novembro de 2023, a Polícia Civil e o MPSP descobriram que criminosos alugaram um imóvel próximo à residência do promotor para monitorar sua rotina.
Histórico dos ataques
A crise de 2006 teve início em 12 de maio, véspera do Dia das Mães, com rebeliões em 74 unidades prisionais. A reação da facção foi motivada pela transferência de 765 presos para a unidade de segurança máxima de Presidente Venceslau. Em resposta, agentes de segurança e grupos de extermínio também promoveram ações de retaliação nas ruas.
Durante o período, o comércio fechou, ônibus foram incendiados e toques de recolher paralisaram a capital paulista. O balanço final de Agência Brasil aponta que a onda de violência deixou centenas de vítimas e marcou a transição da facção para o seu estágio atual de organização transnacional.
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