De defensor do impeachment da Dilma a candidato do Lula: a incoerência de Taques

Primeiro governador a capitanear o impeachment da petista em 2015, ex-tucano agora assume o comando do PSB em Mato Grosso e articula candidatura ao Senado com as bênçãos de Alckmin e do PT
A política, como diz o ditado popular, é como uma nuvem: você olha e ela está de um jeito; olha de novo e ela já mudou. Mas, no caso do ex-governador de Mato Grosso, Pedro Taques, a mudança não foi apenas de forma, mas de substância, cor e discurso. O homem que em 2015 foi o primeiro governador a levantar publicamente a bandeira do impeachment de Dilma Rousseff (PT), agora se reposiciona no tabuleiro para 2026 como uma das apostas do “campo democrático” liderado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Agora ele retorna ao tabuleiro político com uma imagem que, por anos, ele próprio ajudou a consolidar: a do político que se apresentava como adversário do PT — e que fez do impeachment de Dilma Rousseff um marco identitário. Agora, filiado ao PSB, no comando do partido em Mato Grosso, e lançado por lideranças petistas como nome para “fortalecer o palanque” de Lula no Estado, Taques se reposiciona exatamente no campo que combateu com mais barulho na década passada.
O passado: o “paladino” anti-PT
Para entender o tamanho da guinada, é preciso voltar a 2014 e 2015. Eleito governador pelo PDT, Taques não demorou a romper com as diretrizes da legenda — que na época compunha a base de Dilma — para se tornar um crítico feroz do “petismo”. Sua migração para o PSDB, em agosto de 2015, foi um ato simbólico de guerra: ao lado de Aécio Neves, Taques declarou-se um “soldado” contra a gestão federal, rotulando o governo petista como “desastroso” e “corrupto”.
Naquele momento, Taques personificava o discurso da moralidade e da técnica, oriundo de sua trajetória no Ministério Público Federal. Ele não apenas apoiou o impeachment; ele o legitimou politicamente entre os gestores estaduais, sendo uma voz ativa na defesa de que havia “espaço jurídico e político” para a queda de Dilma.
E, quando o processo avançou, Taques não apenas manteve o tom: passou a reivindicar protagonismo. Em 2016, voltou a afirmar que foi o primeiro governador a defender o impedimento de Dilma ainda nos primeiros meses de 2015, discurso repetido em agendas e entrevistas, numa tentativa de carimbar a posição como marca política. Em outra declaração registrada em 2015, chegou a classificar a condução do governo Dilma como “amadora”, num momento em que o debate sobre impeachment ganhava corpo.
Tão volátil quanto o mestre: a rota do PSB e o elo com Alckmin
O salto temporal para 2026 revela um cenário irônico. A guinada que chama atenção agora não é só partidária — embora ela seja, por si, simbólica. Taques migra do PDT ao PSDB (o polo mais nítido de oposição ao PT naquele ciclo), passa anos fora de mandato e retorna ao PSB, partido do vice-presidente Geraldo Alckmin. Sua filiação e a posse no comando estadual da sigla em Mato Grosso foram anunciadas já com desenho eleitoral: ele no Senado, como peça de um arranjo que conversa diretamente com Brasília.
Filiado ao PSB e agora presidente da sigla em Mato Grosso, Taques opera em uma frequência política oposta. A articulação para sua pré-candidatura ao Senado tem as digitais do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) — ele próprio um ex-tucano que trilhou caminho semelhante de reaproximação com a esquerda.
A incoerência apontada por analistas e adversários reside no fato de que o PSB hoje é o principal aliado do PT em nível nacional. Mais do que isso: lideranças do próprio Partido dos Trabalhadores em Mato Grosso já sinalizam que Taques pode ser o nome para compor o palanque de Lula no estado, visando fortalecer o “campo progressista” contra o bolsonarismo — vertente que o ex-governador também passou a criticar duramente nos últimos anos.
Na prática, o ex-governador deixa de ser apenas um ex-tucano com histórico anti-PT e passa a ser apresentado como nome capaz de ajudar a ampliar o palanque lulista num Estado em que a esquerda tradicionalmente enfrenta resistências. O que pode ser ainda mais irônico é que ele poderá estar ligado ainda ao ex-vice-governador, senador e atual ministro da Agricultura, Carlos Fávaro (PSD), que rompeu com Taques e deixou o governo, em 2018, na época para apoiar a candidatura de Mauro Mendes ao governo, contra o próprio Pedro.
Contexto e estratégia para desgastar, hoje, o adversário comum
Essa guinada ideológica não é apenas uma mudança de opinião, mas uma tentativa de sobrevivência política. Após um governo marcado por crises e uma derrota acachapante em 2018, Taques busca no “renascimento” (termo que ele mesmo usou ao deixar o governo em 2019) um novo espaço.
Ao se colocar como o “candidato de Lula e Alckmin” em Mato Grosso, Taques tenta ocupar o vácuo deixado por uma direita hoje fragmentada ou radicalizada, apostando que a memória do eleitor sobre suas críticas ao PT será suplantada pela polarização atual contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.
É justamente aí que a incoerência ganha peso político: Taques tenta se apresentar, em 2026, como “candidato do campo lulista” num Estado em que ele construiu parte de sua trajetória recente demarcando distância do PT e carimbando o impeachment como bandeira. A pergunta que fica para o eleitor não é se um político pode mudar — pode, e mudanças existem —, mas qual é a explicação pública para uma virada tão brusca: revisão de convicções, cálculo eleitoral, reacomodação de alianças, ou simplesmente a lógica do “vale o que viabiliza” num ciclo em que as duas vagas ao Senado em Mato Grosso viraram ativo estratégico para Brasília.
Oposição ao bolsonarismo
Nos últimos anos, Taques também passou a endurecer críticas ao bolsonarismo e ao campo da direita, aproximando o discurso de pautas mais identificadas com a oposição a Bolsonaro. Isso ajuda a compor o caminho que desemboca, agora, na esquerda institucional — mas não elimina o ponto central: o mesmo personagem que se definia como opositor do PT e fazia do impeachment um marcador de identidade hoje se oferece como peça de ampliação do palanque de Lula no Estado.
Do ponto de vista pragmático, o roteiro é compreensível: Lula e Alckmin precisam de palanques mais competitivos onde o governo é minoritário; e Taques precisa de uma ponte nacional que o recoloque no jogo — com estrutura partidária, tempo, alianças e musculatura política. O problema é que a memória do eleitor também é um ativo. E, no caso de Taques, essa memória está registrada em falas, entrevistas e posicionamentos reiterados ao longo do período em que o PT era o alvo preferencial.
Está sem credibilidade
No fim, a guinada impõe um teste de credibilidade: o Taques de 2026 precisa explicar o Taques de 2014 a 2018. Sem essa costura, a candidatura corre o risco de ser lida menos como “evolução” e mais como reposicionamento conveniente — uma troca de uniforme que, em política, pode até ser comum, mas nem sempre é perdoada quando o próprio histórico foi construído no ataque ao campo que agora o acolhe.
A pergunta que fica para 2026 é: como o eleitor mato-grossense, historicamente conservador e que ouviu de Taques as mais duras frases contra o PT, reagirá a esse novo personagem? A “carta de apresentação” atual de Taques fala em defesa da democracia e das instituições, mas o arquivo dos jornais — com suas falas de dez anos atrás — será, inevitavelmente, o seu principal adversário na propaganda eleitoral.
Entre o “soldado do PSDB” e o “aliado de Lula”, Pedro Taques testa os limites da coerência política em busca de um retorno ao poder que parecia improvável até pouco tempo atrás. E usa esse palanque para inventar histórias e propagar mentiras contra o governador, o principal nome da direita do estado.
