Três fatores estruturais — baixa qualificação da mão de obra, produtividade reduzida e uma economia ainda fechada — explicam por que o aumento da renda no Brasil não tem acompanhado o custo de vida. Segundo Rodrigo Simões, diretor da Faculdade de Comércio de São Paulo (FAC-SP), a falta de investimentos em educação e tecnologia impede que a população obtenha ganhos reais significativos.
Para o especialista, essa conjuntura justifica a sensação de inflação descontrolada, mesmo quando índices oficiais indicam estabilidade.
A produção no mundo inteiro cresce, mas, onde houve menos investimento em educação, tecnologia, fábricas e desenvolvimento local, a população sofre porque não consegue dar uma ‘estilingada’ na renda
, afirma Simões.
Percepção de consumo e índices de preços
Heron do Carmo, professor sênior da FEA-USP e ex-coordenador do IPC-Fipe, argumenta que a percepção de inflação é moldada pela frequência de consumo. Itens do dia a dia, como alimentos e combustíveis, geram um impacto psicológico maior do que quedas em preços de produtos menos recorrentes. Quando os preços em supermercados e farmácias sobem, o padrão de vida é imediatamente constrangido.
O economista Alexandre Maluf, da XP Investimentos, destaca que o choque de preços provocado pela pandemia intensificou a comparação entre o gasto atual e o histórico. Além disso, o endividamento das famílias compromete a renda e força cortes em itens essenciais, reforçando a sensação de perda de poder aquisitivo. Maluf ressalta que o INPC, que cobre rendas de 1 a 5 salários mínimos, reflete melhor essa realidade do que o IPCA, índice oficial de referência.
Preocupação no Banco Central
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, manifestou preocupação com a credibilidade da instituição diante da percepção social da inflação. Em conferência recente, Galípolo pontuou que, embora a inflação corrente tenha caído de 12,13% em abril de 2022 para 4,39% em abril de 2026, a alta acumulada desde janeiro de 2020 atinge 42,78%.
O impacto é ainda mais severo na alimentação no domicílio, que registrou alta de 64,35% no período, afetando majoritariamente as camadas mais pobres da população. Segundo o chefe da autoridade monetária, o desafio atual é lidar com o custo de vida elevado que permanece na percepção das famílias, mesmo após a estabilização dos indicadores de curto prazo.
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